Professor da UFBA fala sobre rendimentos no mercado formal de trabalho

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O professor de economia da Universidade Federal da Bahia (UFBa), Wilson F. Menezes, explana em novo texto, sobre os rendimentos no mercado formal de trabalho. O artigo semanal é uma parceria do Departamento de Economia da UFPB com o Grupo WSCOM.

Segundo o especialista, "a duração do emprego funciona como uma espécie de experiência profissional, de forma que os trabalhadores com mais de 5 anos na empresa, com um salário médio de R$ 3.638, recebem, grosso modo, 2,5 mais que os entrantes com até 3 meses".

Confira o artigo na íntegra:

OS RENDIMENTOS NO MERCADO FORMAL DE TRABALHO

Wilson F. Menezes

O Brasil sempre foi visto como um país que lidera as desigualdades distributivas no mundo quando se trata de renda e riqueza, apesar de figurar entre as grandes economias, quando se trata do Produto Interno Bruto. Aspectos importantes dessa desigualdade podem ser visualizados por meio das informações estatísticas disponíveis, mesmo que não consigam captar a integralidade dos problemas sociais. Isso porque o objetivos específicos de cada levantamento não necessariamente é colimado com a pergunta que cada estudioso pode e deve fazer. Por outro lado, as informações sobre rendimentos se prendem, quase que exclusivamente, aos rendimentos do trabalho, fato esse que por si mesmo dificulta uma compreensão global do fenômeno distributivo.

O índice de Gini permite observar a grandeza da concentração da renda. Uma medida de concentração que varia entre zero e um, em que o valor zero indica uma condição de total igualdade distributiva, com mesmo rendimento para todos; enquanto que o valor um indica uma total desigualdade, quando apenas uma pessoa possui toda a renda. Para o Brasil, esse índice foi estimado em 0,49 para 2015. A título de comparação, vejamos esse índice para alguns países selecionados. Perde para o Quênia (0,48), Portugal (0,34), Alemanha (0,29) e Noruega (0,23), considerado o país com distribuição mais igualitária da renda. Mas, com muita “felicidade”, ganha da Africa do Sul (0,65), Nâmbia (0,61), Zâmbia (0,57), Honduras (0,55) e Colômbia (0,54).

Tomando os dados da RAIS-2015 como fonte, verificam-se algumas observações interessantes. O rendimento médio do trabalho foi de apenas R$ 2.180. O valor mediano, que separa os 50% de maiores dos 50% de menores rendimentos, foi de R$ 1.335. Além disso, tem-se que apenas 21,6% do trabalhadores recebem acima de R$ 2400. Dentre os trabalhadores com escolaridade universitária, essa proporção sobe para 49,2%. Sem dúvida, trata-se de uma realidade muito diferente do que se passa em países de mesmo porte econômico.

Os trabalhadores com nível superior de escolaridade recebem uma média de R$ 4.995, 4,5 vezes a mais que aqueles que detêm até o nível fundamental incompleto. O trabalhador do sexo masculino ganha, em média, R$ 2.352, ou seja, 20% a mais que as mulheres, embora essas últimas detenham níveis de escolaridade mais elevados. O trabalhador do mercado formal brasileiro costuma ganhar mais a medida que a idade avança, o que é normal com o acumulo da experiência. Os ganhos daqueles com mais de 60 anos representa 2,8 vezes a mais que o trabalhador jovem com idade entre 18 e 25 anos. Impressionante que os trabalhadores de nacionalidade brasileira ganham, em média, R$ 2.190, representando apenas 40% do que recebem aqueles originários de outras países. Uma explicação para tal fenômeno está nos níveis bem mais elevados de escolaridade desses últimos.

Atributos reletivos ao emprego também costumam diferenciar os rendimentos do trabalho. A duração do emprego funciona como uma espécie de experiência profissional, de forma que os trabalhadores com mais de 5 anos na empresa, com um salário médio de R$ 3.638, recebem, grosso modo, 2,5 mais que os entrantes com até 3 meses. O tipo de vínculo é ainda um forte diferenciador de rendimentos de trabalho, assim é que os estatutários, ganham uma média de R$ 3.620, enquanto para os celetistas a média é de R$ 1.993; os primeiros ganham 1,8 vezes a mais de os segundos.

Estudos internacionais mais recentes apontam uma farsa distributiva no Brasil entre 2001 e 2015. Esse período compreende o final do governo de FHC e toda a era petista. Segundo Thomas Piketty, conhecido economista francês, a desigualdade distributiva não diminuiu nesses anos, isso porque os 10% mais ricos aumentaram sua participação na renda nacional, o mesmo ocorreucom os 50% mais pobres. No entanto, esse comportamento aconteceu em detrimento dos 40% de renda intermediária. A classe média pagou a farsa petista, na medida em que esse foi um resultado das políticas governamentais postas em prática, sem grandes contribuições advindas do processo de crescimento econômico. Ainda assim, eles odeiam a classe média.